Pego carona na expressão de Jeffrey Immelt - CEO da General Electric - um dos executivos mais respeitados do mundo, que prognosticou para a atual crise global um grande "reset" do universo corporativo. Para ele, as relações com consumidores, fornecedores e clientes terão de ser revistas e reiniciadas, como fazemos com um computador travado.
Há anos, venho pensando e afirmando que toda a turbulência que o mundo experimenta traz ao corporativo mundial maior grau de incerteza. Todos os padrões que sempre guiaram o ambiente empresarial estão em polvorosa confusão. Ninguém mais tem varinhas mágicas que prevêem as turbulências. A imprevisibilidade que sempre esteve presente recrudesceu, se tornou imensa como um gigante indomável. Afinal, diriam os mais transgressores, padrões foram feitos para serem quebrados. Paradigmas para serem enfrentados e vencidos, como toda a estigmatização; principalmente quando diante de um novo eixo que desloca as verdades. Os profetas estão em crise, inclusive existencial. Temos um ideário por demais cristalizado pelo tempo de uso e mau uso. Antes disto, as idéias nunca serão a essência das coisas; são apenas um roteiro de investigação.
O maior erro que pode ser cometido é configurar a vida empresarial nos atributos da tradição e se esquecer do homem para salvar a tantos usuais e questionáveis ditames teóricos.
No fio da meada da comparação com nossos computadores, é preciso antes de resetar, passar antivírus, fazer limpeza de disco, apagar históricos – destes temporários. Será preciso encontrar a nova curva, aquela que provoca a descontinuidade. Por isto é preciso resetar.
No viés da tecnologia, sabemos todos que não dá para acreditar tanto em suas maravilhas, porque as descobertas e os maiores inventos não resolvem as necessidades corporativas mais imediatas; talvez pelo descompasso entre o que constroem e o que as empresas precisam para sobreviver imediatamente.
Até agora, o mundo econômico tem se sobreposto, soberanamente, a todos os outros predicados. Assim tomam-se decisões e se empreendem ações, sem qualquer nexo com as necessidades mais subjetivas, como a vocação e a motivação, tomados entre tantos outros valores. Por tão difíceis de serem avaliados e aplicados, acabamos por submetê-los ao desejo imperialista das casamatas econômicas. Não estou defendendo a retirada do lucro como um objetivo permanente das empresas. Apenas quero que outros sejam postos em relevo; principalmente os que não são motivo de balanço ou de processo orçamentário. E é preciso restabelecer a relação de causa-e-efeito, porque sem fatores imponderáveis, como a vocação e a motivação, não se consegue o lucro.
O mais difícil será fazer os apaixonados pela tradição, que lhes convêm, recuarem. Aliás, paixão é pouco; puro fanatismo. As emoções dos fanáticos são impermeáveis ao raciocínio. Jogo quase impossível. Falar às razões não é possível, porque estarão abafadas pela paixão. Falar às paixões também não, porque só ouvem o que lhes afaga.
O comportamento nas organizações é puro extrato de hábitos imutavelmente cristalizados. Hábitos que cerceiam a criatividade, no sentido de fazer diferente, e não as tornam bastante ativas diante da imprevisibilidade da vida. E ponha imprevisibilidade nisto. E ponha cerceamento de criatividade nisto.
Desprender de tanto arraigamento só acontecerá pelo travamento de tudo, como em um computador. Daí só com o reset corporativo, defendido pelo CEO da GE.
terça-feira, 16 de março de 2010
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